quarta-feira, 6 de junho de 2012

O ANTIGO MERCADO PÚBLICO E EXTINTO POSTO DE GASOLINA DE BAGÉ

                                         Antiga foto da Rua General Sampaio



Por Cid Marinho, Bagé-RS

A presente foto, até então desconhecida da "Rua General Sampaio", Centro da cidade de Bagé, foi produzida em 1951 (Do alto do Ed. Salim Kalil). Na época ainda existia o antigo "Posto de Gasolina" construído em 1939 e demolido em 1973, para dar lugar ao atual e polêmico "Calçadão". À esquerda aparece parte da lateral do extinto "Mercado Público" construído em 1886, e demolido em 1954. Era um dos mais bonitos "Mercados" do interior do Estado, com a sua derrubada perdeu-se uma das principais referências da história e memória de nossa cidade. 



terça-feira, 15 de maio de 2012

TERTULIA ENTRE MATES E CANÇÕES



Dia 20 de maio a partir das 19:00 horas, no CTG Candeeiro do Pago em Candiota, acontece a quarta edição da  TERTULIA ENTRE MATES E CANÇÕES. O evento que já homenageou Leopoldo Rassier, Cesar Passarinho e José Claudio Machado, nesta edição homenageia o poeta e escritor natural de Santana da Boa Vista, mas radicado em Candiota desde 1974: SEVERINO RUDES MOREIRA. Serão 12 músicas entre as mais premiadas do autor e mais dois poemas, sendo um deles inédito e que fala em dois retratos de uma querência, ou seja, Candiota de ontem e de hoje. As obras serão defendidas pelos artistas locais e a participação especial de Tiago Cesarino, Zulmar Benitez e Sergio Rosa, com encerramento através da Invernada Artística “Os Candeeiritos”.
O evento terá além de uma jantar campeiro comercializado pelo CTG, vários sorteios de brindes a quem doar um livro novo ou usado. Acervo esse que será direcionado a Biblioteca Publica de Candiota.
Fica, portanto, um convite para prestigiarem esse evento e degustar a poesia desse autor com mais de 20 anos de estrada, acrescidas de belas melodias criadas por seus parceiros musicais e a voz afinada dos jovens cantores e cantoras de Candiota.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota tem nova diretoria

              NOVO PRESIDENTE JOÃO HENRIQUE DUARTE E CÁSSIO LOPES


No dia 14 desse mês, estiveram reunidos em Dario Lassance, os integrantes do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota. Na oportunidade foi escolhida à nova diretoria da entidade que ficou assim composta:

Presidente: João Henrique Dill Duarte,
Vice-Presidente: Cássio Gomes Lopes,
Secretário: Luiz Carlos Machado Nunes,
Tesoureiro: Severino Rudes dos Santos Moreira,
Conselho Fiscal: Ivan Renildo Kasper, Cláudio Greco Castañeda e Daiana Moura Etcheverria.

Cássio Lopes, ao deixar a presidência do Núcleo ressaltou: “Em pouco tempo de existência, nossa entidade obteve várias conquistas importantes, não só para Candiota, bem como a região. Isto é fruto do trabalho em conjunto de pessoas comuns que uniram esforços em prol do coletivo e se engajaram para resgatar a história da nossa região”. Sobre a nova diretoria, Lopes destaca: “Inicia-se uma fase nova, na qual continuaremos a almejar conquistar novos horizontes e ao João Henrique desejo todo sucesso a frente desse tão importante trabalho”.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota Recebe doação de livros de historiador Bageense.

                           Cássio Lopes recebendo os livro de Cláudio Lemieszek



Após breve contato com o renomado historiador Cláudio de Leão Lemieszek, Cássio Lopes presidente do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, salientou o interesse da entidade em adquirir os livros do pesquisador. Algumas semanas após, Cláudio, consegui grande parte de sua obra, a qual fez questão de doar o acervo para os Pesquisadores Candiotenses. Os livros Doados Foram:

Bagé- Relatos de sua História,1997. Livraria Martins Livreiro
Bagé- Novos Relatos de sua História, 2000. Livraria Martins Livreiro
Governo e Governantes de Bagé - 1964-1978, 2003, Editora Praça da Matriz.
Notícias da Revolução de 1923 em Bagé – “A Capital da Paz”, 2008, Editora Praça da Matriz.

“Agradeço ao Cláudio pela doação dos livros, os mesmos serão de suma importância para nossas pesquisas”. Salientou Cássio Lopes.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

Encontro do Passo da Conceição

                                Passo da Conceição, sobre o Arroio Candiotinha
                                        Fronteira entre Candiota e Pedras Altas


Por Cássio Lopes

Após o Combate do Cerro da Palma, localizado entre os arroios Candiota e Candiotinha, ocorrido no dia 15 de março de 1844, ficaram os imperiais sem cavalhada. Era urgente fazer a remonta. Por isso o Tenente Coronel Francisco Pedro de Abreu, o “Chico Moringue”, designou os seus oficiais Fidelis Paes da Silva, Emídio Rodrigues e Barão, com sessenta homens, divididos em três partidas, para recolherem a cavalhada nas estâncias sobre a fronteira da Banda Oriental.
As Vistas se voltavam para propriedades de parentes do General Antônio de Souza Netto, como José Netto e Domingos Netto.
A recorrida foi frutífera. Duzentos cavalos foram “requisitados” para o império, e eram conduzidos no dia 18 de março de 1844, na direção do Candiota.
O Coronel Antônio Manoel do Amaral, que trivera notícias dessa providencia de remonta, mandou o Tenente Coronel Camilo dos Santos Campelo aguardar o retorno dos “predadores”.
Alojando-se no Passo da Conceição, sobre o Arroio Candiotinha, hoje divisa entre os municípios de Candiota e Pedras Altas. O Tenente Coronel Campelo ficou na expectativa dos acontecimentos.
Ali se deveria dar o encontro das três partidas, para bandeando o Candiotinha, rumarem para a Serra dos Veleda, território pertencente hoje ao município de Pinheiro Machado, outrora Cacimbinhas.
Mandando espias acompanhar a aproximação de Fidelis, Emídio e Barão, ficou Campelo na espreita.
Cerca do meio-dia se aproximam os três emissários de Moringue, tangendo mais de duzentos cavalos.
Rumam em direção ao Passo, quando são surpreendidos pela gente do Tenente Coronel Campelo.
Dá-se o entrevero, e os Imperiais vendo-se em minoria, deixam os animais e desabalam em fuga, perdendo quatorze homens e oito cavalos.
A perseguição aos que fogem não é exitosa, já que se espalham em desordem.
A gente de Campelo volta para dar atendimento aos prisioneiros e à cavalhada, ao mesmo passo que o emissário vai levar notícia ao Coronel Antônio Manoel do Amaral, que ainda estava no Cerro da Palma.
A 19 de março, há o encontro de todos os farrapos. Na parte desse confronto, é narrada à valentia e o destemor de Fidelis da Silva Paes, Tenente de Chico Moringue. Como acentua Alfredo Varela: “Fidelis, tremebundo sujeito, conquanto de todos surpreso, não se acovardou. Bateu-se com o arrojo feroz de que deu mostras até o fim da vida em nossos tempos, numa das guerras civis do Uruguai”.

Fonte: Bagé e A Revolução Farroupilha-Tarcisio Antônio Costa Taborda


terça-feira, 6 de março de 2012

“SILO JESUITICO DE SANTA TECLA” COMEÇA A SER DESVENDADO. NA VERDADE, UM FORNO DE CAL.


                                                      Notícia-Silo Indígena


Por Cássio Lopes


Um mistério de 40 anos enfim começa a ser desvendado. Por ocasião das escavações na área do Forte de Santa Tecla, iniciadas em 1969, o renomado historiador Tarcisio Antônio Costa Taborda aproveitou a presença na cidade do arqueólogo Fernando La Salvia, para verificar resquícios de construções em pedra próximas dali, à beira do chamado Arroio Alexandrina. No entanto, a atenção era centrada nos resquícios do extinto baluarte, tanto que em janeiro de 1970 era inaugurado um museu no seu costado.
O mesmo arqueólogo retornou a Bagé nos anos 80, sendo que, em fevereiro de 1982, o então Correio do Sul trazia na capa uma surpreendente manchete: “ENCONTRADO INTACTO EM SANTA TECLA SILO INDÍGENA DE PEDRAS COM MAIS DE 300 ANOS”. Embora a relevância histórica, talvez tivesse sido ofuscada por outro acontecimento, traduzido num sentimento de luto para cidade na ocasião, que foi a morte do Bispo Dom Angelo Mugnol. La Salvia, posteriormente, apresentou um artigo durante o VII Simpósio Nacional de Estudos Missioneiros no ano de 1988, convencionando ser um “Silo” no que intitulou: “REMANESCENTES DAS ATIVIDADES AGRO-PASTORIS DENTRO DO ESPAÇO MISSIONEIRO”, onde relata: “Nossa atividade em 1984, foi prejudicada pelo uso indevido das terras onde se localiza o silo do Posto”. Entendia, porém, tratar-se do antigo Posto de Santa Tecla, pertencente a grande Estância de São Miguel. Ao descrever originariamente esse local: “Como área principal e central, a praça, no entorno, a Capela e as casas e, separadas por um muro, estão às estruturas pertinentes à atividade agro-pastoril propriamente dita” diz que entre 1969 e 1984 sobrou pouca coisa. Persistia, no entanto, intacto, o suposto “Silo”e algumas pedras que indicavam no passado a existência de valos ou cercas.
Mais recentemente, outras menções ao local encontram-se nas obras de Eron Vaz Mattos (Aqui Memorial em Olhos d’água/2003) e Elizabeth Macedo de Fagundes (Inventário Cultural de Bagé/2005), aludindo o estudo do falecido arqueólogo La Salvia. Por último, em janeiro de 2006, antevendo as comemorações dos 250 anos da morte de Sepé Tiarajú, ocorrida na chamada Guerra Guaranítica, autoridades locais após encontro na Câmara de Vereadores juntamente com um cacique guarani teriam visitado o “Silo”. No mesmo ano, Cláudia de Oliveira Uessler, em sua tese de doutorado em História na PUCRS, denominada: “SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E ASSENTAMENTOS FORTIFICADOS IBERO-AMERICANOS NA REGIÃO PLATINA ORIENTAL”, analisando essas ruínas, referindo outro pesquisador, Antonio Lezama, sugere que a estrutura trata-se de um “forno de cal”. A mesma historiadora, em recente participação no livro: “MISSÕES EM MOSAÍCO / DA INTERPRETAÇÃO À PRÁTICA: UM CONJUNTO DE EXPERIÊNCIAS” (2011) ressalta: “improvável à hipótese daquela estrutura tratar-se de um ‘Silo’, pois localizado na barranca de um arroio, a umidade não favoreceria tal estabelecimento”. Comparou com algumas “caleras” também em ruínas existentes no nosso estado (São Nicolau e Caçapava do Sul) e no país vizinho Argentina.

              Edilberto Lucas e Cássio Lopes na limpeza da caleira

Ocorre que, por iniciativa do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, a cargo desse presidente, e por indicação do local através do escritor e poeta Eron Vaz Mattos, foram realizadas nos dias 03 e 07 de setembro de 2011, duas incursões, onde após a retirada de alguns arbustos que o cobriam, tomaram-se suas medidas e proporções. Logo a seguir, alguns questionamentos foram levantados. A umidade realmente não favoreceria o depósito de grãos ou sementes. O lugar era muito acanhado para um Posto Jesuítico, e finalmente: Seria possível até 1969 encontrar-se “intacto” um conjunto de estruturas beirando 300 anos ou mais? As próprias Missões Jesuíticas não resistiram e o que sobrou precisou ser restaurado.
Com ajuda de outro pesquisador bageense, Edgard Lopes Lucas, e após alguns estudos, começamos a desvendar o mistério. Foi frutífera igualmente algumas informações colhidas no Museu Antropológico do RGS, onde repousam alguns materiais da época das escavações e vindas a esta cidade, pelo arqueólogo Fernando La Salvia, e a atenção daquele quadro de funcionários, especialmente pelo Arienei Abreu, técnico em assuntos culturais. A partir do que La Salvia, chamado por Tarcisio Taborda referia, que a Capela próxima ao Silo tinha sua abertura voltada ao NE (Nordeste), concluímos não tratar-se do Posto Jesuítico. É que pelo Diário da Expedição escrito pelo capitão português Jacintho Rodrigues da Cunha, quando chegaram ao verdadeiro Posto de Santa Tecla em 1756, a abertura da Capela era voltada ao ocidente (Oeste). Outros documentos do século XVIII/XIX localizam o Posto Jesuítico em questão ao norte do que fora o Forte de Santa Tecla (e não ao leste, a posição do “Silo”). Por exemplo, no que copilou o famoso Pedro de Angelis: “...á principio Del año siguiente, se construyó El fuerte de Santa Tecla, uma légua mas al sud de uma poblacion que habian tenido nuestros índios Guaranís com el mismo nombre, cuyas ruinas aun se hallaban bastante frescas” (COLECCIÓN DE OBRAS Y DOCUMENTOS RELATIVOS A LA HISTORIA ANTIGUA/Buenos Aires, 1837). Também é notório que dito Posto de Estância foi totalmente queimado pelos próprios índios, ante a chegada dos exércitos espanhol e português durante a Guerra Guaranítica. Sendo constituídos os ranchos de paredes tipo“pau-a-pique” e cobertos com “santa-fé”, não havendo qualquer referencia de estruturas em pedra.

                                              Caleira já limpa


O que contribuiu decisivamente para a verificação de que o “Silo” nunca objetivou ser um depósito de grãos ou sementes e nem possuía 300 anos, foi à consulta a algumas fontes estrangeiras importantes, disponíveis na Internet. O renomado historiador Norberto Levinton, arquiteto e doutor em História residente em Buenos Aires, que colabora em restaurações de povos missioneiros, em artigo datado de 22/05/2010, intitulado: “ARQUITECTURA DE LAS MISIONES JESUÍTICAS” registra que: “En 1793 se compraron para la obra de La iglesia del Pueblo de San Miguel 5000 fanegas de cal (alrededor de 180.300kg) para abastecer la obra de recomposición del edifício, que vênia de una cantera a Santa Tecla”. O mesmo historiador indica a fonte pesquisada – AGNA (Arquivo General Nacional del Argentina, Sala IX, 5-4-3, 15 de enero de 1791). Outra fonte correlacionada diz que o “cal” era: “extraído de uma Calera ubicada em las cercanias Del Fuerte de Santa Tecla” (AGNA, Sala IX, 30-5-1, San Miguel, 12 de junio de 1793).
Mais outra fonte contemporânea, o historiador Ramón Gutiérrez, em artigo: HISTORIA URBANA DE LAS REDUCCIONES JESUÍTICAS SUDAMERICANAS: CONTINUIDAD, RUPTURAS Y CAMBIOS (SIGLOS XVIII-XX)” traz maiores detalhes sobre o suposto “Silo”. Anos depois da expulsão dos padres jesuítas da América, inclusive dos Sete Povos das Missões, ocorrida em 1768, e passados os períodos das demarcações do Tratado de Santo Ildefonso (1777), já em dezembro de 1792, sob a administração espanhola, o encarregado do Povo de São Miguel, Bartolomé Coronil, passou seis meses em Buenos Aires para tratar de sua saúde, e foi recomendado pelos demais pares de administração, integrantes do “cabildo”, para lá gestionar a reedificação do templo. Em 21 de abril de 1789 durante uma tempestade, um raio seguido de um incêndio, destruiu consideravelmente a “cubierta” sobre o transepto estendendo-se aos retábulos e portas daquela catedral. O argumento utilizado foi de que não ficava bem aos espanhóis e seus administrados “rezarem missa” em uma pequena capela adjacente, dedicada a Nossa Senhora de Loreto. Ainda na estadia da capital, se autorizou o reparo da igreja, tendo sido indicado o mestre de obras Rafael Azcura, que viúvo dispunha de tempo para a empreitada além de entender perfeitamente o idioma guarani.
Também descreve-se que: “Havendo alcançado permissão desta superioridade para uma calera nas imediações da Guarda de Santa Tecla no habiendo surtido efecto/contrata em 8 de setembro de 1793 com Juan Carlos Uriglia para por em porto de Acapuiau 5.000 fanegas de cal e pagar em erva de boa qualidade”.A quantidade de 5.000 fanegas de cal eram antigamente equivalentes a 180.300 kg.
Verifica-se, com isso, que o “Silo” originariamente foi idealizado como calera ou forno, embora por razões ainda desconhecidas não tivesse o êxito esperado, mas ficaram as edificações para os operários. Vale lembrar que suas mangueiras de pedras poderiam servir de paragem para animais, pois essa região também era caminho das tropas de mulas que saíam do Uruguay em direção a Viamão. Em 1801, quando da retomada definitiva da Coxilha de Santa Tecla e do baluarte pelos portugueses, chefiados por Patrício Correa Câmara, não se menciona o lugar.
Tais informações revelam que os “Silos”, em verdade, mais de um, foram uma tentativa no final do século XVIII de “fabrico de cal” ou “calcinação” e que serviria para reconstituir a igreja de São Miguel, famosa ruína do estado do Rio Grande do Sul. De fato, finalizaram a reforma, mesmo que tivesse ficado mais curta no comprimento da nave central e sem a cúpula no formato originário de “meia laranja”. Os administradores espanhóis e não os jesuítas levantaram o complexo à margem do Arroio Alexandrina, resguardado pela Guarda Espanhola, que subsistiu, mesmo após a primeira derrocada do forte, em 1776. Entulhos encontrados no seu interior (louças, vidros...) ali foram depositados mais recentemente.
O suposto “Silo” que nada mais é que uma “Calera” ou “Horno” como dizem os castelhanos, apesar de não ser do Período Jesuítico e nem pertencer ao antigo Posto de Santa Tecla da Estância de São Miguel, mas sim do Terceiro Ciclo das Missões, evidencia-se, igualmente, como um marco histórico para a cidade de Bagé, levantado na década de 90 do século XVIII. É de observar-se, que no próprio local, numa encosta de cerro existem até hoje vestígios de uma possível pedreira, bem como no próprio Arroio Alexandrina, mais ao sul, verificável até mesmo no Google Earth.
Portanto, se deduz a importância da revisão dos relatos de uma parte de nossa história, acontecimentos ocorridos antes dos 200 anos da fundação de Bagé.
Para finalizar, destacamos que o objetivo da presente matéria, em nenhum momento foi desmerecer o trabalho dos autores citados, pelo contrário, queríamos agradecer a: Eron Vaz Mattos, Elizabeth Macedo de Fagundes, Tarcisio Antônio Costa Taborda e Fernando La Salvia, pois se não fosse suas pesquisas nunca teríamos chegados a esse tão importante resultado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tratado de Paz de Ponche Verde

Duque de Caxias em 1845

Por Cássio Lopes
Em 1842, foi nomeado Presidente e Comandante de Armas da Província do Rio Grande do Sul, Luis Alves de Lima e Silva, o então Barão de Caxias, em princípios de 1843, já andava nos arredores de Bagé, em perseguição aos farroupilhas, cujo combate sem tréguas se propusera.
A zona da Campanha era o teatro das principais operações militares, e desde Alegrete até Bagé, estendia-se a ação do pessoal do Duque de Ferro.
Quando os farroupilhas sentiram-se extenuados da luta, e tiveram lugares démarches para a implantação da paz, da correspondência trocada entre Caxias e Bento Gonçalves, resultou a escolha de Bagé para o cenário das conversações. Assentada a data para o encontro entre os delegados rebeldes e o chefe das forças imperiais, para Bagé acorreram, por aqueles, o Pe. Francisco Chagas e Antônio Vicente de Fontoura, e por estes o próprio Caxias.
A seis de novembro de 1844, houve a primeira conferência, dela resultando outra, em quinze de novembro para as negociações finais. Quando Caxias com sua coluna chegou a Bagé para esse segundo encontro, foi recebido pelos habitantes do povoado, que lhe transmitiram a nova vitória dos legalistas sobre os farrapos, nos Porongos, interior do atual município de Pinheiro Machado. Era uma vitória há muito tempo ambicionada pelos imperiais, que não perdiam os passos de Canabarro para um encontro campal, a fim de poderem destroçar a última força rebelde. O Anseio por essa vitória era geral, pois uma derrota que se afligisse a Canabarro representaria um golpe de morte na Revolução e na República Rio-Grandense. Por isso, a satisfação dos bajeenses ao transmitir ao Presidente da Província, a notícia alvissareira. Esperava-se outro tanto do Barão de Caxias, e daí a pergunta do cura da Capela de São Sebastião:
- General, que horas deseja seja entoado o “Te-Deum”? (Cântico de ação de graças pela vitória obtida, que seria a manifestação de gratidão, a Deus, pelo fim próximo da Revolução).
Porém Caxias, que há muito tempo determinara que não se mencionasse nas partes dos reencontros o número de mortos, pois “mortes de irmãos não são títulos de vitórias”, respondeu a seu venerando interlocutor:
- Reverendo! Precedeu a esse triunfo derramamento de sangue brasileiro. Não conto como troféu de desgraças de concidadãos meus. Guerreio dissidentes, mas sinto as suas desditas, e choro pelas vítimas com um pai por seus filhos. Vá, reverendo, vá! Em lugar de “Te-Deum”, celebre missa aos defuntos, que eu, com o meu Estado Maior e a tropa que na igreja couber, irei amanhã ouvi-la, por alma dos nossos irmãos iludidos, que pereceram no combate. Entrou, depois, o Barão de Caxias, pelas ruas de Bagé, aclamado por todo o povo, e, no outro dia, juntamente com o representante dos farrapos, que viera para a Conferência da Paz, assistiu à missa que encomendara.
Caxias queria aproveitar, antes de tudo, a desunião dos chefes farrapos, iniciada durante a reunião da Assembléia Constituinte, para efetivar a pacificação. Sabia que as coisas entre os farrapos não iam bem, unicamente por causa da divisão entre os chefes, e que esta circunstância é que favorecia a paz.
Tão Logo regressou da corte do Rio de Janeiro o plenipotenciário farrapo Antônio Vicente da Fontoura, trazendo os documentos que complementariam as démarches que desenvolvera, passou a insistir para que fosse assinado o documento que finalizaria a guerra. Mas, de parte dos farrapos, foram surgindo empecilhos, adiamentos, que dificultavam o trabalho. Finalmente, na região de Ponche Verde, estavam reunidos os Imperiais e os Farroupilhas. Aqueles se achavam no Passo do Alonso, sobre o Rio Santa Maria e estes em frente ao Banhado da Carolina, atual município de Dom Pedrito. A dificuldade de reunir os chefes farroupilhas, em razão das desavenças existentes entre eles, só foi superada pela pertinácia de Caxias em insistir na obtenção da Paz. No dia 25 de fevereiro de 1845, conseguiram os farrapos ter a sua reunião, sob a presidência do General Canabarro, General em Chefe do Exército Republicano, quando foram discutidas as condições de paz e tomadas às deliberações conseqüentes. Em vista da decisão tomada pela unanimidade dos comandantes, Coube a David Canabarro elaborar e publicar uma proclamação alusiva a paz, dirigindo-se aos cidadãos, que “a continuação de uma guerra seria o ultimatum da destruição e do aniquilamento de nossa terra”, e aponta para um “poder estranho (que) ameaça a integridade do Império”. E conclui: “União, fraternidade, respeito às leis e eterna gratidão ao ínclito Presidente da Província, o Ilmo. e Exmo. Sr. Barão de Caxias, pelos afanosos esforços, que há feito na pacificação da Província”.
Tão logo o Barão de Caxias recebeu os documentos assinados pelos farroupilhas, tratou de lançar a sua Proclamação aos Rio-Grandenses, datada de 01 de março de 1845, no campo de Alexandre Simões, margem direita do Rio Santa Maria:
“Rio-grandenses! É sem dúvida para mim de inexplicável prazer o ter de anunciar-vos que a guerra civil que por mais de nove anos devastou esta bela província, está terminada. Os irmãos contra quem combatíamos estão hoje congratulados conosco, e já obedecem ao legítimo governo do Império Brasileiro. Sua Majestade o Imperador ordenou por Decreto de 18 de dezembro de 1844 o esquecimento do passado e mui positivamente recomenda no mesmo decreto que tais brasileiros não sejam judicialmente nem por outra qualquer maneira inquietados, pelos atos que tenham sido praticados durante o tempo da revolução. Esta magnânime deliberação do Monarca Brasileiro há de ser religiosamente cumprida. Eu o prometo sob minha palavra de honra. Uma só vontade nos una Rio-grandenses, maldição eterna a quem se recordar das nossas dissenções. União e tranqüilidade seja de hoje em diante nossa divisa. Viva a Religião. Viva o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil! Viva a integridade do Império!”
No dia 2 de março já estava o Barão de Caixas em Bagé, com seu Estado Maior e um grande número de oficiais entre os quais o Coronel João da Silva Tavares. Posteriormente, dia 4 chega Bento Gonçalves ás 11 horas da manhã e ao anoitecer entra Antônio de Souza Netto, que conferenciaram com o Barão.Inicialmente o movimento Farroupilha não possuíra caráter separatista. Seus líderes desejavam o poder de eleger o presidente provincial, de ter câmaras de vereadores, de legislar e de recolher os impostos que deveriam servir para o desenvolvimento local. Conseguiram um acordo de paz bastante razoável, mas não alcançaram a meta de maior autonomia da Província, sua principal bandeira inicial. Contudo, mesmo com o enfraquecimento militar e desentendimento entre os líderes, a pacificação da Província de São Pedro foi conseguida através de um ajuste com o Império e não por meio de aniquilação em campo de batalha. Consequentemente, a certeza de ter mantido a honra e não ter simplesmente capitulado foi um forte legado dos farrapos para a construção da atual imagem regionalista do gaúcho.
Fontes:
Bagé e a Revolução Farroupilha – Tarciso Antônio Costa Taborda
Guerra Farroupilha: considerações acerca das tensões internas, reivindicações e ganhos reais do decênio revoltoso- Laura de Leão Dornelles
A PAZ DOS CARAMURUS, caderno de história nº 14 - Helga Piccolo