terça-feira, 31 de janeiro de 2012

General David Canabarro: Herói ou Vilão?

                                                      General David Canabarro

Por Cássio Lopes

General David Canabarro, por batismo David José Martins, nasceu no dia 22 de Agosto de 1796 em Taquari, RS. Já em 1811 – 1812 participou de campanhas no Prata e com apenas 15 anos entrava para o exército imperial do Brasil, saindo desta campanha com a promoção a cabo. Na Guerra Cisplatina David Canabarro recebeu a patente de tenente, devido a sua “intensa participação e coragem” como cita Alfredo Ferreira Rodrigues:
No combate do Rincão das Galinhas (24 de setembro de 1825) salvou o Exército Brasileiro de
desbarato completo, evitando a perseguição das forças inimigas vitoriosas com uma brilhante
carga de cavalaria que, com admirável precisão e denodo levou contra elas, dando tempo a
que se fizesse a retirada em boa ordem. Essa façanha valeu-lhe os galeões de Tenente.

Durante a Revolução Farroupilha (1835 – 1845), tornou-se uma das lideranças desta
revolta, obtendo diversas vitórias sobre o Exercito Brasileiro, antes defendido por ele; na Guerra dos Farrapos obteve a patente de Tenente-Coronel, atuando ao lado de Bento Manoel Ribeiro e Bento Gonçalves nas decisões e estratégias a serem usadas pelas tropas farroupilhas. Promovido o Coronel em 1837 David Canabarro também participou de batalhas para o surgimento da República Catarinense ou República Juliana ao lado de Garibaldi. Em 1841 Canabarro é nomeado General, devido aos seus relevantes serviços prestados à causa da liberdade Riograndense.
David José Martins adotou o nome David Canabarro por volta de 1836 ainda por razões não completamente esclarecidas: sabe-se que alguns de seus parentes já usavam o nome “Canabarro” desde longa data, este talvez seja o motivo pela qual David Martins transformou-se em David Canabarro, como sugere Ivo Caggiani, historiador Santanense:

Tudo leva a crer que alguma ligação deve existir com os “Machado” e os “Ferreira” de Vila
Pouca de Aguiar. Em conseqüência os descendentes dos nobres “Canavarros” de Portugal
devem ser os “Canabarros” do Brasil.
Canabarro tanto quanto militar era um comerciante de grande astúcia. Em parceria com seu tio-cunhado Antônio Ferreira Canabarro iniciaram uma forte sociedade, tanto como comerciantes como estancieiros. Adquiriram a primeira propriedade em 1834, no atual município de Santana do Livramento, a Estância da Alegria, já em 1846 compraram a sesmaria de São Gregório. Em 1847 David e Antônio separaram a sociedade ficando Antônio Ferreira na estância da Alegria e David com a estância São Gregório. Em 1849 David Canabarro juntamente com seu irmão João Martins adquirem uma área contígua a sesmaria de São Gregório, denominada sesmaria de São João, conhecida como Estância São João do Umbu e em 1858 eles também compraram as terras relativas à sesmaria de São Gregório pelo leste. Em 1867 David Canabarro casa-se com sua cunhada, ficando com todo o patrimônio pertencente a seu irmão já falecido. Durante os séculos XVIII e XIX diversos conflitos entre Portugueses e Espanhóis se deram na região de fronteira, principalmente no extremo sul do Brasil, no Rio Grande do Sul essa era uma área de extrema importância tanto militar quanto comercial devido às proximidades com o Rio da Prata e particularmente Montevidéu, de acordo com isso tanto Portugueses quanto Espanhóis possuíam um grande interesse nestas terras. Preocupado com as constantes invasões vindas da banda Oriental o governo Português nomeia diversos “comandantes da fronteira”: esses líderes eram encarregados de manter a linha fronteiriça e impedir novas invasões Castelhanas. O General David Canabarro é escolhido como um desses guardiões devido a seu total conhecimento da região já que há muito tempo residia no local que abrange as terras hoje pertencentes ao município de Santana do Livramento, fronteira entre Brasil e Uruguai.
Após a pacificação de Ponche Verde, Canabarro foi nomeado por o Barão de Caxias, Comandante de Fronteira, área que se estendia desde o curso do rio Quarai até Upamaroti, linha da Fronteira de Bagé, passando por Sant’Ana do Livramento, vila cuja importância estratégica muito crescera no decurso da Revolução Farroupilha.
Com a referida nomeação Canabarro mandou construir na então Estância São Gregório uma sede para seu Comando da Fronteira, esse local ficou conhecido como “Recreio”.
David Canabarro aparece na historiografia Riograndense como uma figura dúbia. Enquanto uns o defendem como herói, homem de grandes feitos, outros o acusam de covarde, traidor da causa farroupilha. Um dos eventos mais discutidos atualmente ao envolver o conflito Farroupilha e o nome de Canabarro é a batalha de Porongos. Na historiografia atual encontramos evidencias reveladoras sobre o caso. Na fase final da Guerra dos Farrapos, a batalha de Porongos, conforme as novas críticas foi onde, segundo consta, David Canabarro traiu os Lanceiros Negros, grupo de escravos que lutavam em troca de sua liberdade. Previamente avisado do avanço das tropas imperiais, desarmou o grupo de lanceiros negros e antes da batalha deixou-os para lutarem sozinhos e sem armas contra o exército imperial.

Conforme o Historiador Cláudio Moreira Bento, a base da tal acusação foi um ofício bem forgicado (falsificado) por Chico Pedro, como sendo assinado pelo Barão de Caxias para ele, no qual este lhe ordenava que atacasse Canabarro, pois este não resistiria conforme combinação entre ambos. E mais que ele aproveitasse "para atacar e eliminar os mulatos, negros e índios farrapos e poupasse sangue branco.
Esta falsidade atribuída a Canabarro fez o efeito esperado, entre os farrapos, num quadro de Guerra Psicológica, os quais em parte passaram a considerá-lo um traidor, até por interesse político escuso e como descarrego ou fuga de responsabilidades pelo insucesso militar da revolução que seria colocado assim na conta de Canabarro, "pelos demônios de todas as revoluções," segundo Morivalde Calvet Fagundes, o autor do mais completo livro sobre o Decênio Heróico. Ou seja perto do fim do insucesso de uma revolução, ocorre a caça de um bode expiatório e no caso em tela foi Canabarro, não habituado às guerras de alfinetes..
Este ofício falsificado, que tantas injustiças provocou à bravura, à honra e até hoje à memória histórica de Canabarro, teve a seguinte origem:
"Chico Pedro em perseguição a Canabarro e acampado no Pequeri, falou ao seu Major de Brigada João Machado de Moraes: És capaz de imitar a firma do Barão de Caxias? E ele respondeu: - A letra é boa e talvez eu possa imitar. Então vamos fazer uma intriga contra Canabarro. Pois ele é o único que pode sustentar a Revolução. Portanto vamos fingir um ofício assinado por Caxias para mim dizendo que no dia tal eu vá atacar Canabarro e derrotá-lo, visto haver entre o Barão de Caxias e Canabarro e oficiais deste um convênio."
Escrito o ofício com a assinatura de Caxias falsificada, Chico Pedro ao passar em Piratini pela casa de Manoel Francisco Barbosa, mostrou-lhe o ofício falsificado. E este, republicano extremado, mordeu a isca. E exaltou-se e copiou o dito ofício e o distribuiu. A intriga planejada fez o efeito desejado que até hoje perdura, sem que sejam analisadas as heróicas vidas de Canabarro e Caxias que negam a capacidade de fazerem tal acordo.
Mas, Félix de Azambuja Rangel em seu relato na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 1º e 2º trimestre de 1928, p. 36-47, comprova a armação feita para abalar a confiança dos farrapos em Canabarro, o comandante de seu Exército, pelo seu grande e indiscutível valor militar como mestre consumado da Guerra à gaúcha, como se demonstra em sua biografia no livro: “O Exército farrapo e os seus chefes” (Rio de Janeiro: BIBLIEx, 1992, 2v).
Canabarro era único chefe republicano que realmente tinha verdadeiro prestígio para manter por mais algum tempo a luta, por isso bem compreenderam Caxias e Chico Pedro inutiliza-lo, indispondo-o com os outros generais e seu Exército, o que conseguiram com artificioso plano." ( WIEDERSPHAN, Convênio de Ponche Verde p. 72/73). Chico Pedro, chefe militar notável e grande estrategista, omitiu este fato em suas Memórias publicadas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 1921. Qual seria o motivo?
Ivo Caggiani em David Canabarro de Tenente a General, Porto Alegre Martins Livreiro - Editor, 1992 escreveu:
"Ainda que estivessem em andamento as negociações de paz, a grande preocupação de Caxias era realmente David Canabarro a quem nunca conseguira vencer" e, completaríamos, a que nunca Chico Pedro conseguira surpreender.”
Segundo o General Morivalde Calvet Fagundes em sua História da Revolução Farroupilha p.201:
“Canabarro ao assumir o Comando-em-Chefe do Exército da Republica, em agosto de 1843, manteve a sua tropa em movimentação e atividade constantes, através da Guerra de Guerrilha (A Guerra a gaúcha).
"Canabarro sustentou por 16 meses a Guerra de Guerrilha. Foi mais de um combate por mês. Caxias o perseguiu por 38 léguas, através de toda a fronteira sudoeste sem conseguir um encontro com Canabarro, que tentava repetir a tática vitoriosa contra General João Paulo dos Santos Barreto, em 1841, famoso engenheiro militar.
Como comprovação do fato, o próprio Caxias escreveu ao Ministro da Guerra Jeronimo Coelho:
"É sem dúvida a primeira vez que Canabarro é surpreendido, o que até agora parecia impossível por sua continua vigilância!"
Capistrano de Abreu, grande historiador do Brasil, assim interpretou os sentimentos do Exército Brasileiro, ao saber que o Duque de Caxias havia dispensado as honras militares:
"O Duque de Caxias dispensou as honras militares! Acho que ele fez muito bem! Pois as armas que ele tantas vezes conduziu à vitória, talvez sentissem vergonha de não terem podido libertá-lo da morte!"
Estavam junto com Canabarro na surpresa de Porongos os generais Antonio de Souza Netto, João Antônio da Silveira, Coronéis Manoel Lucas de Oliveira, Felipe Portinho e Teixeira Nunes e o Ministro Vicente da Fontoura dos quais jamais se ouviram desconfianças de lealdade e valor de Canabarro.
Canabarro lutou ainda na Guerra contra Rosas e na Guerra contra Aguirre, recebendo o título de general-honorário, título com o qual combateu os invasores na Guerra do Paraguai. Faleceu em sua estância, onde um ferimento no pé evoluiu para uma grande infecção e terminou por matá-lo em 12 de abril de 1867
Referências:
 Educação Patrimonial e a Pesquisa arqueológica do “Sítio Casa de
 David Canabarro” em Santana do Livramento, RS- Fabiana de Oliveira e André Luís    Ramos Soares

5 comentários:

  1. É um mito falso que os lanceiros estavam desarmados. Tanto que deteram as tropas do império impedidas de perseguir o grosso da tropa, que se derrotada, não teria tratado do poncho verde, pois seria rendição incondicional.
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    Já existia, nesta época, mais negros e mulatos livres do que escravos, daí não ter sentido que o império não quisesse libertar negros.
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    Houvesse este fato de traição dupla, de desarmar os lanceiros e não lhes dar a liberdade, não teriam lutado lanceiros negros na Guerra do Paraguai.
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    A lógica do número de mortes é que estavam armados e enfrentaram o combate com denodo. Não que estivessem de mãos vazias se imolando feito tolos. Querem transformar heróicos combatentes em estúpidos traídos e tolos.

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  2. O maior mito é o que você está sustentando: 1) Não foram os lanceiros negros os massacrados e sim a infantaria que estava sem cartuchame e era na maioria negra; 2) Os lanceiros estavam em acampamento separado; 3) a infantaria sem cartuchame só possuía armas brancas e foi dizimada. 4) O perigo deste negros era o seu treinamento e suas táticas apuradas de guerrilha; 5) É um desconhecimento apurado de história básica do Brasil afirmar que não havia sentido no Império em não querer libertar os negros escravizados, como o senhor explica a violenta Revolta dos Malês, na mesma época da Guerra dos Farrapos? 6)Os negros da infantaria foram massacrados e os lanceiros negros entregues ao exército imperial, foram transformados em semicativos e jogados como bucha de canhão na Guerra do Paraguai. ESTE MITO criado pelo MTG para tornar romântica a defesa, deslocando os lanceiros negros para o lugar da infantaria negra tem o intuito de escamotear a verdade que é muito menos heroica do que os senhores querem pintar.

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    1. O sr. Fanon está certo. O engraçado é que sempre falaram que os principais comandantes dos farroupilhas, saíram pobres da guerra, mas o Canabarro comprou uma estância um ano depois que ela terminou. Este mesmo Canabarro, foi um dos que recebiam recursos para manter um efetivo na fronteira. Mas isto era só no papel. Embolsavam boa parte. Tanto é verdade, que qdo estourou a guerra do Paraguai, não existia estes soldados disponíveis.
      Mais um pseudo-herói.

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  3. Prezados Senhores!

    A presente matéria foi elaborada justamente para trazer ao lume, as duas versões sobre o referido episódio para que os leitores tirem suas próprias conclusões. Se foi surpresa ou massacre, traição ou conspiração não cabe a nós julgar, o mesmo exemplo serve para a conduta de General David Canabarro. Porém um fato ficou comprovado: A bravura e o heroísmo dos Lanceiros Negros.

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  4. Traidor. Não tenho dúvidas. Só pelo fato de estar entre os que apoiaram o Tratado e ter sido nomeado por Caxias após o massacre já o faz responsável. O resto é pura bobagem criada pra vender livro.

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